Historiador Reis Torgal critica abolição do feriado da Restauração

O historiador Luís Reis Torgal reavivou hoje a discussão em torno da abolição do feriado do 1º de Dezembro, “um dos mais simbólicos do longo processo do sentido de independência” dos portugueses. (artigo em RTP, de 15 de Maio de 2014)

“Terminaram com o feriado da Restauração, um dos mais simbólicos da nossa independência e afirmação. É como se estivesse em causa o nosso sentido de independência, dificilmente conseguido e não logo em 01 de dezembro de 1640, pelo qual o Padre António Vieira foi um dos homens que mais lutou”, disse.

Reis Torgal falava na Universidade de Aveiro, no lançamento pelo Círculo dos Leitores dos “Sermões de Incidência Política” do Padre António Vieira, sob coordenação de Luís Machado de Abreu, em que salientou a “conjuntura de crise” em que Vieira viveu.

Para Reis Torgal, na época do Padre António Vieira (séc. XVII), “Portugal era um país conjunturalmente em crise” e o Padre António Vieira vai ser “uma espécie de orador oficial” da Restauração.

É no quadro ideológico da origem divina do poder que Vieira se move e que fundamenta a restauração da independência, com a teoria de que o poder é concedido por Deus ao povo, que o entrega ao rei, mas que lho pode retirar, se este governar contra o povo.

O historiador recorda que “havia problemas sociais profundos na sociedade portuguesa” e que Portugal tinha um peso reduzido na Europa, sem o apoio da Santa Sé, e tanto assim que após 1640 os bispos eram eleitos pelo Rei e só foram sagrados após a paz com Espanha.

“O Padre António Vieira era um realista, com a consciência de um país em guerra, que experimentou dramaticamente na sua juventude no Brasil, com holandeses e franceses, mas também um futurista que, apesar da crise, começa a pensar Portugal em grande”, disse.

Personalidade “complexa e cheia de contrastes” Vieira logo em 1641, no Sermão dos Bons Anos proferido na Capela Real, lança a ideia do quinto império do mundo, ao falar das “vitórias militares dadas por Deus” como caminho para futuras conquistas da formação desse império, que os portugueses haverão de depositar nas mãos do sucessor de S. Pedro” – lembrou o historiador.

Fazendo a analogia Reis Torgal comparou a falar-se hoje de excelência com a Universidade em crise, para sublinhar o lado idealista de Vieira.

Os “Sermões de Incidência Política” integram a Obra Completa do Padre António Vieira, editada pelo Círculo de Leitores, com a direção de José Eduardo Franco e Pedro Calafate.